Poema fala sobre as dificuldades enfrentadas diariamente pelos policiais.
Homem suspeito de matar policial no último sábado ainda não foi preso.
Alex Suzarte foi morto durante perseguição policial
(Foto: Divulgação/Polícia Militar)
O Policial Militar Alex Oliveira Suzarte, que foi morto durante uma
perseguição a dois assaltantes na madrugada do último sábado (21),
escreveu um poema poucos meses antes de morrer relatando a rotina de ser
policial. Intitulado de ‘Enquanto todos dormem’, o poema descreve
algumas dificuldades enfrentadas pela vítima a cada turno do trabalho.
Enéias Suzarte da Silva Neto, pai de Alex, afirmou em entrevista ao G1 que
desconhecia o hábito do filho de escrever cartas e poemas e que soube
do conteúdo da carta apenas durante o velório. “A gente não sabia dessa
carta com esse poema. Ele escreveu e pediu para a esposa guardar sob a
condição de que caso acontecesse algo com ele, a carta deveria ser lida
para todos”, declarou. O pai do policial afirmou também que com a morte
do filho, outras cartas e poemas surgiram. “Só a esposa sabia. Eu acabei
de ler uma carta que ele falava de anjos e que, no final, dedicou aos
quatro anjos da vida dele, que eram a mãe e os três filhos”, contou
emocionado.
De acordo com a família, o poema foi escrito por Suzarte cerca de três
meses antes de morrer. Em determinado trecho do poema, o policial fala
sobre a morte. “Enquanto todos dormem, estou dividido entre o medo da
morte e a árdua missão de fazer segurança pública”.
Em outro momento, Alex fala do futuro e da vontade de voltar para a
família. “Enquanto todos dormem, eu sonho acordado com um futuro melhor,
com o devido respeito, com um salário justo, com dias de paz, mas
principalmente com o momento de voltar para casa e de olhar minha esposa
e filhos e dizer-lhes que foi difícil sobreviver à noite anterior, que
foi cansativo e até frustrante, mas que estou de volta, e que tenho por
eles o maior amor do mundo”, diz o poema.
Sobre o assunto, o pai que há 12 anos é agente prisional na cidade
desabafou. “Ele não fez críticas ao sistema, ele simplesmente expôs o
que os policiais de todo o país vivem. Essa situação não é apenas de
Poconé, ele teve sensibilidade para relatar tudo isso”, disse Enéias.
Imagem mostra trecho da carta escrita pelo PM
(Foto: Divulgação/ PM)
O policial era casado e deixou três filhos, o menor deles, uma menina
de apenas 10 meses de idade. Chorando, o pai conta que Alex era um bom
pai. “Ele era um pai muito presente e muito amoroso. Uma das meninas
pega e abraça a farda dele como se ele ainda estivesse ali”, detalhou.
Sobre o suspeito de ter matado o filho, Enéias disse que não quer
conhecê-lo. “Esse desalmado ainda não está preso. Eu não quero saber
quem é, mas já o perdoei. Até porque a raiva não vai trazer meu filho de
volta”, declarou.
Alex finalizou o poema com uma dedicatória. “Este texto eu dedico a
todos os policiais que como eu só desejam voltar para casa vivos”.
Depois da morte do filho, Enéias disse que agora vai se focar nos netos.
“Deus me deu essa missão, vou ter que dar apoio aos meus netos e a
minha nora. Vou fazer tudo que meu filho faria por eles”, finalizou.
O caso
O policial militar foi morto durante uma perseguição a dois homens que
assaltaram uma lanchonete na manhã de sábado na cidade de Poconé. Depois
de levar o dinheiro do caixa, os ladrões fugiram em uma moto e foram
perseguidos pela polícia e caíram da moto. Eles entraram em luta
corporal com os policiais e durante a briga, um dos criminosos atirou
contra o policial militar, que não resistiu aos ferimentos e morreu na
hora.
Um adolescente foi preso ainda durante a tarde de sábado suspeito de
participar do assalto. O homem suspeito de ter atirado em Alex ainda não
havia sido preso até as 12h [horário de MT]. De acordo com a Polícia
Militar, o suspeito já foi identificado.
Veja abaixo a íntegra do poema escrito por Alex Suzarte:
"Enquanto todos dormem"
"Enquanto todos dormem eu estou em lugares inimagináveis, mata-gais
intransponíveis, bueiros Fétidos, casas abandonadas entre outros
lugares que alguém normal se recusaria a ir.
Enquanto todos dormem eu estou em alerta máximo, tentando não apenas
defender pessoas que nunca vi nem mesmo conheço, mas também tentando
sobreviver.
Enquanto todos dormem no aconchego de suas casas, debaixo dos
cobertores, eu estou nas ruas debaixo da forte chuva, com frio e cansado
madrugada a dentro.
Enquanto todos dormem eu estou travestido de herói, e mesmo não tendo
super-poderes estou pronto para enfrentar o perigo, para desafiar a
morte e quiçá sobreviver.
Enquanto todos dormem estou dividido entre o medo da morte e a árdua missão de fazer segurança pública;
Enquanto todos dormem eu sonho acordado com um futuro melhor, com o
devido respeito, com um salário justo com dias de paz, mas
principalmente com o momento de voltar para casa e de olhar minha esposa
e filhos e dizer-lhes que foi difícil sobreviver a noite anterior, que
foi cansativo e até frustrante, mas que estou de volta, e que tenho por
eles o maior amor do mundo.
Este texto eu dedico a todos os policiais que como eu só desejam voltar para casa vivo."